São Bernardo do Campo, 04 de Setembro de 2007
Para Adriana Bartkevicius
Uma Escola
Eu tenho muitas coisas pra te contar. A melhor delas é que eu já sei me virar melhor sozinha, no entanto, às vezes, sinto vontade de conversar com alguém que é capaz de me fazer entender.
Neste sábado, como você já sabe, eu desmarquei a consulta porque tive a oportunidade de conhecer um assentamento do Movimento dos Sem Terra de perto.
Foi uma experiência maravilhosa. Antes de chegarmos a Tremembé, cidade onde se encontravam as 50 famílias que conquistaram suas terras, nós paramos em Guararema para conhecer uma das escolas do MST.
Eu me interesso um pouco por arquitetura, eu não sei se já te contei sobre como eu me senti quando fui fazer um trabalho de fotografia na Catedral da Sé, um templo lindo, onde é impossível desacreditar em Deus.
Mas, voltando à Escola Florestan Fernandes, pois este é o nome, fiquei extasiada em ver algo tão bonito, feito com tijolos vermelhos, salas brancas e amplas, janelas largas e altas que nos permitiam ver os morros verdes no horizonte. Eu gostaria de poder descrever bem aquilo que vi. Uma escola organizada, conservada, um prédio com uma arquitetura linda, flores, reprodução de obras de arte nos corredores.
Logo quando eu cheguei lá, percebi que em uma das salas estavam o professor e os alunos. É claro que eu me senti atraída e entrei para escutar um pouco da aula e, quem sabe, sair de Guararema tendo aprendido mais alguma coisa.
Na parede, de frente, entre a lousa e a janela (com vista para aqueles morros verdes), tinha um cartaz, acompanhado da foto do autor já de idade, que dizia:
“A grandeza de um homem se define por sua imaginação, e sem uma educação de 1ª qualidade, a imaginação é pobre e incapaz de dar ao homem instrumentos para transformar”
Florestan Fernandes
Demais, não acha?
O professor estava dando uma aula que discutia o que é Método. Até onde eu entendi, e que pude escutar da aula, o método é uma teoria do conhecimento. A partir de um método bem definido, podemos desenvolver ações repetidas e que sempre terão, de certa forma, o fim esperado. Pelo menos é para isso que existem metodologias, não é?
Pra construir uma ponte ou fazer um bolo sempre existe métodos, receitas, enfim, maneiras de realizar a ação já pré estabelecida por alguém que fez e viu que deu certo. Se o método não for bem definido ou mal interpretado, dificilmente o bolo sai e a ponTe se ergue.
Sabe Adriana, pensando tudo isso, agora percebo como é importante respeitar algumas leis.
Mas, não é sobre isso que eu quero escrever. O que pretendo nesta carta é levantar algumas questões que não saem da minha cabeça.
Por que ninguém mostra esse lado do MST na mídia? Você já ouviu falar dessa escola? Adriana, já leu alguma matéria em que algum pequeno agricultor do MST foi entrevistado?
Já se perguntou por que quando a televisão divulga que um grupo de sem terras acampam em um terreno improdutivo, os repórteres dizem que aquelas pessoas invadiram? Sabe o que eu não entendo? É que, desde o inicio da faculdade, nos ensinaram que em uma boa matéria os dois lados, ou mais, envolvidos devem contar sua versão do fato. Mas eu nunca vi, li e escutei uma reportagem feita desta forma quando se trata do MST e de outros movimentos sociais formados pela população das classes menos favorecidas. É legal lembrar também que pela Constituição Federal todo brasileiro tem direito a moradia, educação, saúde e condições de trabalho dignas, e ‘eles’ sempre se esquecem de tocar neste assunto.
Bom, Adriana, era só sobre isso que eu queria te contar, e acabei aproveitando pra desabafar também.
Espero que a gente se veja logo!
Lilian Milena S. Penha